Queria poder te mostrar a cara que tu fez quando o Júlio entrou por aquela porta a primeira vez. Foi menos de um segundo mas eu vi. Claro que vi. Já são vinte e nove anos juntos, Serginho, eu conheço as tuas caras. E as tuas bocas. Claro que conheço.
Também não te culpo: que lapa de homem, né? Eu mesmo teria feito uma cara parecida com a tua, se já não estivesse olhando pra ti. Naquele momento eu lembro de estar te olhando e te achando tão cansado, Serginho. Daí tu se atrapalhou um pouquinho e quando olhei pra porta lá estava ele, lindo, o Júlio. Depois tu pegou o Diário do Nordeste que tava por ali e começou a ler como se fosse algo de suma importância. Mas no atrapalhamento tu pegou o caderno de esportes, Serginho. Logo tu, que nunca na vida assistiu um jogo de futebol.
Até hoje eu dou risada quando lembro da tua seriedade consultando o resultado do último Fortaleza x Criciúma, a matéria sobre a boa fase do Yago Pikachu.
Já são seis anos indo e vindo desse hospital, Serginho, e eu não conheço as palavras que possam te dizer o quanto eu te amo e o quanto eu sou grato pelo teu carinho, pelo teu cuidado, pela tua companhia. Eu toda hora preso nesse leito e tu do meu lado imitando a voz do Coxinha e do Doquinha, mesmo eu te pedindo pra não me fazer rir. E tu lá, me fazendo rir, demônio.
O que tu não viu naquele primeiro dia, por estar muito concentrado no Fortaleza x Criciúma, é que o Júlio te olhou de um certo jeito também. Foi menos de um segundo, antes de ele vir falar comigo pra preparar a medicação. E não foi só essa vez: sempre que a gente vem aqui eu percebo esses olhares roubados, um escondido do outro.
Nesses vinte e nove anos você me deu muito mais do que eu merecia, Serginho, muito mais. Eu não sei quanto tempo me resta, mas suspeito que não é muito. E se tem alguém merece viver uma viuvez cheia de felicidade com um gostoso, esse alguém é você.
Ontem, depois que você saiu pra trabalhar, eu peguei o zap dele. Assim que eu piorar um pouquinho mais eu te dou. Agora ainda não, ainda te quero meu. Mas em breve.
Te amo. Fernando