O dia ainda era noite quando o celular avisou que era hora de rezar. O alto-falante do aparelho de quase dez anos de idade emitia um som metálico, abafado, distorcido; e por isso mesmo até que parecido com o som que emanava dos minaretes de qualquer cidade síria cinco vezes ao dia.
Talvez por conta dessa similaridade, Omar não acordou para a oração porque seu sonho incorporou aquele chamado: sonhou que era fim de tarde em Damasco, que dois dos pacientes tinham cancelado e que ele tinha ido jantar com a mãe, que ele escutava o mesmo chamado da varanda da casa da mãe, que a mãe tirava uma soneca numa poltrona com o rádio ligado em alguma música de Fairuz, que a voz suave de Fairuz competia com a do muezim, que Fairuz perguntava a ninguém em seu árabe libanês naquela tarde qualquer:
kifak inta?
Omar acordou vinte minutos depois, com o celular ainda tocando alto e o vizinho batendo na parede, dizendo:
- Quatro e meia da manhã, porra!
Ele acordou bruscamente, desligou o alarme, e as varandas de Damasco se dissiparam nas quitinetes de São Paulo. Expulso do sonho, Omar fez questão de guardar algo dele consigo e enquanto fazia sua ablução continuou cantarolando baixinho as palavras do rádio de sua mãe: kifak inta...?
Depois da oração e do banho, com o sol já em trabalho de parto, ele foi para a calçada, acendeu um cigarro e o fumou inteiro antes de entrar no carro. No banco do motorista, Omar ligou o aplicativo e enquanto esperava a primeira corrida, ligou o rádio e tentou encontrar alguma coisa:
don't believe me just watch don't belie
vernador do estado decretou nesta terça-feir
nfiel eu quero ver você morar num mo
eu sou canela de fogo reteté de j
Omar percebeu que estava procurando Fairuz e desligou. A primeira corrida apitou no celular de quase dez anos de idade. Ele aceitou, ligou o carro, olhou no retrovisor, colocou o cinto, deu a seta e entrou na pista.